terça-feira, 11 de agosto de 2026

"Olhar para trás"

 Olhar para trás nunca foi o meu caminho preferido. Sempre preferi a promessa do futuro ao peso do que já vivi em mim. Mas hoje , por um instante , parei. Olhei para a estrada dobrada pelas sombras dos anos e dei por mim a fazer a pergunta que quase me tira o fôlego: como é que eu consegui? Pensei nos dias em que o ar parecia faltar, nas tempestades que ameaçavam não ter fim e no silêncio pesado de tantas noites em que a vida me exigiu mais do que eu achava ter para dar. Pensei nas certezas que desabaram, nos recomeços que doeram e nas feridas que tive de curar em silêncio para continuar a caminhar. E , no entanto contra todas as probabilidades, aqui estou. Não sei exatamente onde fui buscar tanta força. Houve momentos em que a minha coragem não foi um grande ato de bravura, mas apenas aquele murmúrio quieto ao fim do dia a dizer: "amanhã tento outra vez". Resisti quando parecia impossível, continuei quando o corpo e a alma pediam para parar, e atravessei territórios que pareciam desenhados para me destruir. Hoje percebo que não preciso de gostar de olhar para trás para reconhecer o valor da minha jornada. O passado pode até ser um lugar difícil de visitar, mas é também a prova viva de que sou maior do que tudo aquilo que me tentou derrubar. Não piso essas memórias com nostalgia, mas com um respeito profundo por quem fui nas horas mais escuras --- porque foi essa pessoa, exausta e ferida, que garantiu que eu estivesse aqui hoje. Consegui porque continuei. Consegui porque, no fundo, a minha vontade de viver e vencer sempre foi maior do que qualquer tempestade.

Felizarda Drumond.

                             



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